“O desaparecimento é um problema social”

Share on FacebookPin on PinterestShare on LinkedInShare on Google+Tweet about this on Twitter

A promotora Eliana Vendramini discorre sobre os desafios e as conquistas do Programa de Localização e Identificação de Desaparecidos

(Thinkstock/Reprodução)

O Live de sexta-feira (25) trouxe ao estúdio de CLAUDIA a promotora do Ministério Público de São Paulo, Eliana Vendramini. Em 2014, ela concorreu ao Prêmio CLAUDIA na categoria Políticas Públicas graças à sua atuação como coordenadora do Programa de Localização e Identificação de Desaparecidos (PLID).

O órgão foi criado por ela no ano anterior na cidade de São Paulo com o objetivo de sanar os problemas que, até então, impediam a identificação de pessoas desaparecidas.

Na época, um levantamento mostrou que, ao longo dos quinze anos anteriores à criação do programa, mais de 3 mil pessoas haviam sido enterradas como indigentes sem que os órgãos responsáveis tivessem sequer tentado encontrar as famílias.

Na conversa com a editora de CLAUDIA Isabella D’Ercole, a promotora falou sobre os desafios que o serviço tem enfrentado, o impacto do Prêmio CLAUDIA em seu trabalho e também das conquistas do Programa.

Confira os principais trechos da entrevista:

Falha de comunicação

Antes da criação do programa, havia uma importante falha de comunicação entre os órgãos responsáveis por autópsias e identificação de corpos encontrados pela Polícia Civil: o Instituto Médico Legal (IML) e o Serviço de Verificação de Óbitos.

“A descoberta (da falha de comunicação) foi bastante impactante. Quando nós conseguimos perceber a dinâmica desses fatos, olhávamos boletim de ocorrência de morte e boletim de ocorrência de desaparecimento com nomes. Não eram pessoas não identificadas.

Descobrimos que o número era altíssimo e que havia uma falha grave de comunicação entre os órgãos de autópsia – o IML e o SVO – e a própria Polícia Civil. O mais incrível disso é que todos eles fazem parte da mesma Secretaria de Segurança. Eles não dialogavam.”

Drama familiar I

Eliana relatou um caso extremo em que entre a data da morte e a da descoberta do paradeiro do corpo passaram-se quinze anos.

“Nós chegamos a casos de mais de quinze anos de procura quando, entre o desaparecimento e a morte, havia se passado apenas três dias. Dei a mão para um filho que procurava o pai, achando que, após quinze anos, ele estaria vivo, o que era crível mesmo, mas ele estava morto.

Tinha passado por sistemas públicos formais como hospital e autópsia. Foi muito triste”.

Drama familiar II

A entrevistada discorreu sobre um caso que chamara a atenção do Ministério Público. Afinal mostrava que algo de muito grave acontecia na cidade. É a história de um idoso que passou mal na rua, foi levado ao pronto atendimento de um hospital por policiais militares e acabou falecendo dias depois.

A morte não foi informada à família. O mais dramático é que a filha daquele senhor, sabendo que o pai tinha lapsos de memória, bordava o nome dele e seis telefones para contato na roupa do homem. Era justamente uma medida para evitar que o idoso se perdesse na rua.

“Ele passou mal na rua, foi levado a um hospital em que a presença dele foi negada quando questionada pela filha. Eu digo que essas pessoas redesapareceram. Porque elas desapareceram, apareceram e o Estado desapareceu com elas, colocando-as num cemitério, numa área pública”.

Um problema social

Para lidar com a dor vivida pelos familiares do desaparecido, Eliana afirmou que o programa conta com equipe interdisciplinar, que auxilia para amenizar a angústia inerente a esse tipo de situação.

“As pessoas estão perdendo um pouco a noção de humanidade e respeito à dignidade alheia. O desaparecimento é tido por especialistas como uma dor maior que a morte, porque ele traz a incerteza do encontro, não tem o fechamento do ciclo. É desesperador.

Então, o programa foi crescendo ao longo desse tempo e foi se tornando interdisciplinar, temos psicólogos que tratam com essas famílias”.

A promotora alertou que, após a localização do corpo que já foi sepultado como indigente, são necessários três anos para que o direito à exumação do corpo – e a um enterro digno –, seja cumprido. “É importante que a população saiba que só depois de três anos é possível fazer a exumação da ossada.

As pessoas precisam participar desse movimento em prol de todos. Eu digo que o desaparecimento é um problema social, não é só de quem está vivendo”.

190 e Boletim de Ocorrência

Em caso de desaparecimento, a promotora afirmou que o correto é notificar a Polícia Militar, por meio do telefone 190 com rapidez e, pessoalmente, registrar um Boletim de Ocorrência (BO).

“Quanto mais rápido, melhor. Pode avisar o 190 porque a polícia militar faz uma difusão local rápida de onde possa estar o idoso, por exemplo, que perdeu a memória. Tendemos, pela esperança, a imaginar que dá para esperar, mas se a pessoa não está no local, não volta ao local ou deixa de se comunicar com a habitualidade comum, não é incômodo nenhum pedir ajuda.

A partir do BO, nós orientamos contato com o Ministério Público no nosso Programa de Localização e Identificação de Desaparecidos, via telefone 11 – 3119 7183 ou ainda via Facebook, no PLID SP .”

Cartilha de Enfrentamento ao Desaparecimento

Em dezembro do ano passado o Ministério Público, junto com a Secretaria Municipal de Direitos Humanos lançou a Cartilha de Enfrentamento ao Desaparecimento, que pretende instruir a população como agir em casos de desaparecimento. Tratam-se de instruções simples mas que, segundo Eliana, eram desconhecidas.

“A gente lançou uma cartilha sobre o que fazer no momento do desaparecimento, que é sempre um momento não esperado e desesperador. Ouvimos profissionais das mais diversas áreas: saúde, educação, atendimento de rua”.

FONTE ORIGINAL DA MATÉRIA:
Claudia

Você pode gostar...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *