Grandes estilistas brasileiras falam sobre ser mulher na moda

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À frente de algumas das marcas mais desejadas, Glória Coelho, Giuliana Romanno, Patricia Bonaldi e Helo Rocha falam sobre moda e carreira.

Gloria Coelho (Nicole Fialdini/Divulgação)

Elas comandam grifes importantes e bem-sucedidas no mercado de moda brasileiro, cada uma em seu nicho. Reunimos Gloria Coelho, Giuliana Romanno, Patricia Bonaldi e Helo Rocha para um bate-papo informal, em que elas pudessem trocar impressões sobre a moda e suas trajetórias. O encontro aconteceu em um estúdio em São Paulo, onde cada uma delas também posou para os retratos que acompanham a entrevista. As imagens representam um pouco do que elas são como designers: Gloria e seu minimal viajante, Patricia e seu estilo romântico, Giuliana e a beleza dos detalhes da construção e Helo e a vibe sexy. Começamos a conversa perguntando sobre seus caminhos criativos. E elas, entre polêmicas e concordâncias, desenvolveram o papo a partir daí por sua conta e risco.

Gloria: A gente faz moda para a nossa turma. Eu acho que temos de mostrar bem quem a gente é. Mostrar todas as nossas obsessões, todas as nossas loucuras. Elas começam a gostar da gente porque se identificam. É interessante entender bem quem são essas mulheres.

Patricia: Eu antes pensava em uma menina muito menininha. Hoje eu já tenho uma mulher na cabeça. A gente se reinventa junto com elas.

Gloria: O que vende mais é o que as pessoas realmente querem de você. A cliente vai falar, a Patricia Bonaldi eu conheço pelos brilhos. A Gloria Coelho é pela tecnologia. Cada um tem uma história. E qual a sua, Helo?

Helo: Minha história é muito envolta na feminilidade, na sexualidade. Por mais diferentes que as mulheres sejam, eu sempre tento fazer com que elas se sintam poderosas e sexy.

Gloria: E quais são as suas obsessões? Por exemplo, eu vejo um Game of Trones e já fico louca por aquilo. Aí eu quero fazer na passarela.

Helo: Gosto de cinema, de arte, de natureza, de espiritualidade. A cada hora, a minha cabeça vai para um lado, mas acho que a espiritualidade é uma coisa que me pega bastante.

Gloria: Eu descobri a minha roupa que faz sucesso. Aí essa roupa a gente põe no NSE, o “nunca sai de estoque”. (risos) Se está vendendo, eu não paro.

Giuliana: É a sua calça famosa.

Gloria: Sim! Tem uma calça que é de 2001. É a primeira do ranking e representa 35% do faturamento. E você, Giuliana, me fala de suas obsessões.

Giuliana: Eu sou obcecada por corte, modelagem, acabamento. Sou virginiana. A roupa é, com certeza, muito espelhada em mim. A mulher que trabalha, tem filhos, tem de estar confortável com um bom tecido. Também tenho uma história de mercado financeiro antes de ir para a moda. Estudei economia, trabalhei em mercado durante dez anos. E fui jogadora de polo aquático. Seleção brasileira. Muito das minhas coleções, da alfaiataria com o esportivo, vem dessa parte da minha vida.

Gloria: Uma coisa masculina e feminina.

Giuliana: Súper. A alfaiataria vem do guarda-roupa masculino, mas ela é feminina, é mais leve. Eu tenho dez anos de marca já. Fui criando meu repertório. Comecei bem pequenininha, em um ateliê. Eu cortava, tinha uma modelista, uma piloteira. Foi tudo muito orgânico, todo o crescimento da marca, todo o conhecimento.

Gloria: Com o mercado financeiro, você sabe mexer com o dinheiro.

Giuliana: Só que eu detesto hoje em dia.

Gloria: Mas é importante. Definir os relatórios, saber fazer. A gente tem que ser mais escandinava do que brasileira. Mas às vezes eu não penso em nada. Que se dane. Eu faço pela imagem.

Patricia: É para isso que a gente faz desfile, né? Se for apenas comercial, você não exercita essa imagem.

Gloria: E quais são as suas missões? Uma empresa sempre tem uma missão.

Giuliana: A missão agora, em 2017, é fazer um projeto ligado à sustentabilidade. Alguma coisa envolvendo isso.

Helo: A minha é ligada a um projeto social com mulheres rendeiras do interior do Rio Grande do Norte, que inclusive já trabalharam comigo.

Patricia: Eu estou em um momento da vida de internacionalizar a minha marca. Estou focada nisso.

Gloria: A minha primeira missão é a excelência. A minha primeira é a ecologia, vai. Salvar o planeta. Ajudar os outros é maravilhoso. Eu acho que eu tenho que fazer isso, mas a gente já ajuda dando empregos. A missão mesmo é a excelência. A arte, a criatividade, a individualidade. E a tecnologia avançada.

Patricia: Mas a gente não tem nem tecido. Estamos um passo atrás.

Gloria: Por isso você vai para a bordadeira.

Patricia: Sim, você tem que criar o seu próprio tecido. Recortar, criar uma nova textura. E tem uma coisa sobre tempo também. É o tempo das pessoas, e isso é a coisa mais valiosa que existe. No Brasil, temos essa fartura, gente que tem essa habilidade e topa fazer.

Gloria: Você faz esporte, Helo?

Helo: Eu faço muay thai todo dia. Faço musculação, corro também.

Gloria: E você?

Patricia: Eu faço pilates. Gostaria de fazer mais, mas estou em um momento de muita loucura e trabalho.

Giuliana: Faço, mas eu sou aquela pessoa mais preguiçosa. Gosto de fazer uma boa fisioterapia. Acupuntura, massagem. Mas uma coisa em que eu penso muito, pela qual sou obcecada, é a alimentação. É quase uma loucura. Estou quase fazendo um curso em Nova York de healthy food.

Gloria: Há 35 anos, eu faço ioga três vezes por semana. E sou formada em capoeira. A professora chega 7h30 em casa porque eu não tenho como fugir. Tenho muita ansiedade. E faço meditação.

Helo: Meditação é muito life-changing.

Patricia: Uma obsessão minha. Adoro ler filosofa. Quase me formei em direito e me habituei a ler muito. Quem gostar de filosofa, me contate.

ELLE: A gente tem algumas matérias nesta edição sobre feminismo e suas ligações com a moda, conexões estéticas. O que é feminismo para cada uma de vocês? Vocês se consideram feministas?

Helo: Eu acho o feminismo uma questão de liberdade. Cada mulher pensa isso de um jeito diferente. Eu sou feminista de um jeito e você é de outro.

Gloria: A (empresária) Luiza Trajano montou um grupo de mulheres. Elas pensam nas pequenas empresárias, aí elas pensam na penitenciária, o que é exemplar, e as pessoas saem todas preparadas para entrar no mercado. Eu não consigo nem fcar lá porque é muito profundo. Eu não sou nada política.

Giuliana: As mulheres estão aprendendo a se aceitar. Ser o que elas são. Cada uma é bonita do seu jeito. Hoje em dia, tem um reflexo disso na moda. Tem a questão da beleza natural, espontânea. Acho que tudo isso faz parte do empoderamento da mulher.

Gloria: O feminismo é lindo quando você admira as mulheres pela atitude delas. Pelo que elas estão executando. Pelo que elas estão fazendo na vida. Pelo que estão contribuindo para a sociedade. Mulheres que estão lutando por uma sociedade melhor. Eu tenho muito orgulho delas.

Gloria: De que vocês mais gostam? Qual a maior felicidade na vida?

Helo: Comer.

Patricia: O meu também é comer.

Giuliana: Os meus pequenos.

Gloria: Isso tudo e entrar em uma água, sentir o sol entrar na sua pele, o vento bater no seu rosto e olhar para água e para as estrelas.

ELLE: O que é sexy?

Gloria: Björk, que é o sexy que eu acho mais legal. Ela não é o sexy que a gente vê aqui, no Brasil. Ela se espreguiça para ser sexy. Ela faz uns movimentos. Ela é sexy sendo pássaro.

Helo: Eu consigo traduzir o sexy mais em imagem e atitude do que em palavras. É mais um feeling.

Gloria: Sexy é mais mental. A mais sexy entre todas que existem no mundo é a atriz do filme Ninfomaníaca, a Stacy Martin.

Giuliana: Sexy tem a ver com a personalidade. A pessoa pode estar de jeans e camiseta e estar supersexy.

Gloria: Um olhar é mais sexy do que uma pessoa que usa todos os símbolos da roupa para ser sexy. A paulista tem mania de usar todos os símbolos. A paulista usa o decote, o justo e o curto, tudo em uma coisa só. Carioca é mais hippie. Acho mais legal.

Helo: Tem gente que nem no olhar consegue. Sexy: ou você é ou você não é.

Gloria: Eu gostei de Ninfomaníaca. Na hora em que o filme apareceu, o Lars Von Trier falou do problema de uma pessoa que escandaliza todo mundo. E as pessoas não se escandalizam com mortes. Esses filmes que ficam matando gente o tempo inteiro. No filme, ela fica doente por ser ninfomaníaca. Se eu fosse ninfomaníaca, eu ia ser muito feliz com isso. Eu aceitaria se eu fosse. Tenho cinco planetas em Virgem. Eu não beijo ninguém se eu não amar. Não transo com ninguém se não for assim. Se eu fosse ninfomaníaca, você nem sabe. Sem culpa. Esta coisa hipócrita: matar não tem problema, e algo que é da vida pessoal tem.

FONTE ORIGINAL DA MATÉRIA:
Elle

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