Entretenimento

‘Pobres Criaturas’, de Yorgos Lanthimos, é um convite à experimentação da vida

Filme protagonizado por Emma Stone usa de metáforas elaboradas para criar um sonho coming of age feminista e potente. Em entrevista à Vogue, o diretor e a atriz comentam sobre esta aventura

É um filme como nenhum outro. Pobres Criaturas mistura referências e emerge como uma produção fresca em meio às mesmices de Hollywood. Nono filme do diretor grego Yorgos Lanthimos, ele tem roteiro adaptado do romance vitoriano Poor Things, de Alasdair Gray, e carrega em sua essência uma urgência literária de contar boas histórias. “Meu entusiasmo inicial ao ler o livro foi a personagem principal não ser nada parecida com o que já tinha visto ou ouvido falar. Isso já foi um excelente começo”, conta o diretor em entrevista à Vogue Brasil. Ele, então, convidou Tony McNamara para transformar a narrativa em roteiro e, durante as gravações de A Favorita, apresentou a ideia para Emma Stone.

“Eu adorei a ideia, mesmo não tendo lido o livro, só de ouvir Yorgos descrever a personagem para mim e o mundo que ela habita, o que constrói para si mesma… Foi muito inspirador”, explica Emma, também em entrevista à Vogue Brasil. O sim de ambas as partes veio ali no set, já que a frutífera parceria deles estava dando os primeiros passos. “Passado alguns anos desse momento, ele finalmente me mostrou o roteiro finalizado e foi tão maravilhoso quanto eu esperava.”

E toda essa sensação de grandiosidade que o filme causa após a sessão (dica: veja mais de uma vez) é mérito de uma das personagens femininas mais instigantes dos últimos tempos, Bella Baxter. Nascida de um experimento feito pelo seu “pai”, o cientista e médico Godwin Baxter (Willem Dafoe), ou God – leia as entrelinhas –, ela teve o cérebro trocado com o de um bebê. O corpo de mulher adulta com as sinapses de uma criança cria uma dicotomia estranha e intrigante do jeito que ela enxerga o mundo a partir de seu novo nascimento.

“Pobres Criaturas é um filme sobre o que um ser humano é capaz de fazer em um novo começo, com uma tela em branco, e o que experimenta a partir daí de uma maneira diferente do que já foi feito. Estamos condicionados a explorar [o mundo]”, define Yorgos sobre o seu filme, que concorre a 11 estatuetas no Oscar 2024.

Uma das purezas na atuação de Emma Stone é, justamente, esse período inicial de sua vivência, testando o mundo ao redor com a inocência que nos é falha à medida que crescemos. E vê-la com tanta honestidade nesse papel dá uma esperança diante dos prazeres da vida, da comida ao sexo. “Nos estágios iniciais de Bella, Yorgos, Tony e eu criamos um sistema de colaboração, entendendo a cada cena o que precisava ajustar nas suas falas de acordo com a sua evolução. Estava tudo no texto, nós só inventamos coisas durante as gravações”, conta Emma, com entusiasmo.

Ela, que venceu todos os prêmios de atuação até agora e é uma das favoritas ao Oscar, tem sido ovacionada pelo público e pelos pares da indústria por se entregar tanto a uma personagem tão ousada – principalmente pela questão da nudez (que não é gratuita, diga-se) durante Pobres Criaturas. “Eu não me sinto ousada. Acho que o meu trabalho enquanto atriz é interpretar a personagem da maneira que acredito. E ter o Yorgos como um diretor tão colaborativo foi essencial, porque pudemos conversar sobre tudo. Não sei se parece ousado ou apenas necessário contar sua história e a maneira como ela aborda todos os aspectos da vida de Bella, não apenas o sexo”, defende. “Acho que as pessoas mencionam a nudez como se isso fosse a coisa mais ousada que você pode fazer – e não concordo com isso. O que foi inspirador e atraente para interpretar Bella é cada aspecto da sua vida, e como é novo tudo o que aprende, seja sexo, dança, gastronomia, política ou filosofia”, afirma a já vencedora do Oscar pelo papel em La La Land (2016).

É impossível sair apática depois de Pobres Criaturas, principalmente se você for mulher. Existe uma potência tão grande na liberdade dela, nessa vontade quase visceral de viver e descobrir cada parte da existência. É comovente, para dizer o mínimo. “Não acho que Bella julga as experiências como boas ou ruins, todas elas são parte da vida e ela está animada com isso. E caso não goste de algo na realidade atual, ela se afasta disso; ela é franca e honesta sobre os impulsos e não pensa em questioná-los. Bella ouve a si mesma – tudo isso é muito inspirador”, diz Emma.

Os outros personagens que a orbitam são quase todos homens: o assistente Max (Ramy Youssef), que vira seu noivo; o advogado boêmio Duncan (Mark Ruffalo), que vira seu amante; o colega filósofo Harry (Jerrod Carmichael); e o ex-marido, Alfie (Christopher Abbott). Além de homens, também têm em comum o fato de tentarem controlá-la de formas variadas, confundido amor e posse – algo bastante corriqueiro, infelizmente, na experiência de ser mulher neste mundo.

O olhar da câmera para além
Além do elenco e da história serem um deleite, outro elemento de forte atração no filme é o visual, com uma construção estética particular e muito coesa com o arco dramático da protagonista. “Quando li o livro e pensei em adaptá-lo, já sabia que precisaria criar um mundo único”, comenta Yorgos. No romance de Alasdair Gray, não há nada relacionado a cores, formas ou objetos, é um romance de época vitoriano. “Eu senti a necessidade, no filme, de fazer do ponto de vista de Bella, porque no livro a história é contada por outras pessoas. Então, o interessante era entender como construir isso a partir da visão dela e como ela encara o mundo em que vive.”

A sensação é de passado, mas um pouco de futuro, um misto de steampunk com surrealismo, um toque da estética vitoriana. “Queríamos explorar as facetas, como tornar o filme diferente e único, mas um pouco familiar a ponto de não nos questionarmos o tempo todo onde estamos ou que época é. Há todos esses elementos que nos permitem ser mais livres enquanto espectadores, isso permite que a história nos leve a qualquer lugar”, comenta o diretor.

Isso foi importante também para a equipe de figurino, de Holly Waddington, e design de produção, comandada por Shona Heath e James Price, que pode, por exemplo, incluir eletricidade. “Tinham coisas mais específicas, como a carruagem do [Godwin] Baxter: como ele está à frente do seu tempo, ele tem uma a vapor. Adicionamos a cabeça de cavalo para os outros cavalos da rua não se assustarem com uma carruagem se movendo sozinha”, se diverte Yorgos.

Durante a aventura de Bella, ela vai explorar Lisboa acompanhada do amante Duncan. Por ali, vemos bondinhos sobrevoando a cabeça dos pedestres, cores vibrantes e formas surrealistas. A Alexandria, próxima parada após a travessia de navio, também é uma ideia. “Queríamos apoiar a ideia da história e da liberdade também no visual, e encontramos maneiras de fazer isso.”

Claro que para alcançar o precioso resultado, muito trabalho foi feito no caminho. Foram meses de pesquisa para chegar aos designs e tomar decisões de como ficaria, de fato, na tela. “E quando as filmagens começaram, a conversa com Robbie [Ryan], nosso diretor de fotografia, foi imprescindível para entender como tudo aquilo seria filmado – e quais outras camadas poderíamos adicionar para tornar as coisas ainda mais particulares. Foi um processo longo e evolutivo”, diz Yorgos Lanthimos.

Juntando a história, a atuação e a estética, Pobres Criaturas se torna uma produção cinematográfica completa e complexa. Os arcos da protagonista se mesclam com os cenários que, por sua vez, crescem aos olhos por conta das escolhas de lente e câmera. É uma viagem de exploração dos sentidos, não só para Bella Baxter, mas também para a audiência.

E antes que a conversa sobre male gaze esvazie a potência do filme, Yorgos deixa um recado: “Eu nunca tentei evitar o ‘olhar masculino’, porque eu sou um homem e não posso fingir que não sou. A chave é entender que tipo de história você está tentando contar. Não consigo encontrar uma razão pela qual um homem não estaria interessado em contar esse tipo de história”. Para o diretor, a indústria está caminhando para um momento em que os homens também estão interessados na psique feminina e em compreendê-la.

“Ainda assim, isso não significa que você está renunciando ao fato de ser homem ou de ter um olhar masculino. Significa que, com o que sou, como posso contribuir para essa conversa”, defende, reforçando que foi honesto e interessado durante o processo de Pobres Criaturas. “Eu estava interessado em contar essa história e incorporar a minha experiência como homem. Os personagens masculinos estão ali e são realistas por causa disso. Eles reagem a ela [Bella] com uma sensação excessiva de liberdade, de acordo com a perspectiva deles.”

Emma Stone concorda e acrescenta que, enquanto atriz e produtora executiva do filme, também teve espaço para colaborar com a sua experiência enquanto mulher. “Eu fico um pouco mais irritada que ele [Yorgos] com esse tópico do ‘male gaze’ porque ele tira completamente o meu arbítrio. Eu produzi o filme, trabalhei em conjunto e foi importante para mim contar a história da maneira que contamos. Fizemos coisas juntas que acredito serem histórias poderosas centradas nas mulheres”, reforça.

Yorgos Lanthimos e Emma Stone se conheceram em 2015, enquanto ela gravava o musical de Damien Chazelle, e, desde então, fizeram quatro projetos juntos – A Favorita, o curta-metragem Bleat, este e o que está por vir, Kind of Kindness. “Sinto que a minha carreira foi acontecendo e, há algum tempo, percebi que poderia colaborar para além da atuação. Agora, passando para a produção [executiva] também, ao lado de Yorgos, Ed [Guiney] e Andrew [Lowe] foi uma experiência maravilhosa.”

“Senti uma colaboração integral para o processo, de ambos os lados. Por mais que Yorgos possa se ver em elementos de personagens masculinos, eu posso me ver em Bella e como ela foi formada. Não gostaria que as pessoas tirassem a minha parte disso na hora de terem essa conversa”, reitera Emma Stone.

  • Fonte da informação:
  • Leia na fonte original da informação
  • Artigos relacionados

    Botão Voltar ao topo